DOMUS IESU

 

Cristo ontem,

hoje e sempre.

  Rua Almirante Reis, Nº7, Rossio ao Sul do Tejo - Abrantes, Portugal

(+00351) 241 333 243

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Jesus Cristo, o Fiel dos fiéis e Senhor dos senhores, o único que possui a imortalidade, que habita numa luz inacessível, que nenhum homem viu e pode ver, manifestar-se-á nos tempos estabelecidos. A Ele, honra e poder eterno. Ámen.

(cf. Tim 6,15-16)   

 


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XV DOMINGO COMUM

1ª leitura (Is 55,10-11):  Assim como a chuva e a neve que caem do céu não voltam mais para lá sem terem irrigado a terra, sem a terem fecundado e feito germinar, para que dê semente ao semeador e pão para comer, assim é com a palavra que sai da minha boca – diz o Senhor: não voltará para mim sem ter produzido efeito, sem ter realizado a minha vontade e sem ter cumprido aquilo para que Eu a mandei.


* A Palavra não volta ao Senhor sem produzir efeito.

Tanto esta leitura tirada de Isaías como o trecho evangélico têm por tema a eficácia da palavra de Deus na nossa vida. O Segundo Isaías (cc. 40-55) é uma espécie de poeta que enche as suas páginas de imagens para que a mensagem fique bem clara. No caso concreto, ele diz, sem margem para dúvidas, que a natureza da Palavra de Deus é produzir efeito. Esta é uma «Boa Nova», se bem que nem sempre nos dêmos conta disso. Mas há uma condição para que essa eficácia surta efeito: é preciso acolher essa Palavra, como a terra acolhe a chuva e a neve. Se o nosso coração não estiver lá para a acolher, perde-se, como se perde a semente lançada à beira do caminho. Ora, o que acontece é que o coração nem sempre está lá: ou para a ouvir ou para a ler. Perdemos, por exemplo, tanto tempo com leituras que não têm utilidade nenhuma (e sobretudo utilidade para entender a vida autêntica) e somos tão negligentes quando se trata de pormos em dia as leituras que contêm a Palavra de Deus, fonte de vida eterna! Sabemos o nome dos desportistas e dos actores das telenovelas de trás para a frente e de frente para trás e, no que se refere à Palavra de Deus, tantas vezes a nossa ignorância é deveras confrangedora. A verdade é que, com a leitura da Palavra de Deus, pode acontecer o mesmo que acontece com qualquer outra leitura: quanto mais lermos, mais gostamos de ler e mais claros se nos tornam os planos de Deus a nosso respeito.

 

PARA ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO.

2ª leitura (Rm 8,18-23):  Estou convencido que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória futura que nos será revelada. A criação inteira vive em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus. De facto, a criação foi sujeita à caducidade – não por vontade própria, mas por decisão daquele que a sujeitou – mas também ela espera ser libertada da escravidão da corrupção, para chegar à liberdade na glória dos filhos de Deus. Com efeito, sabemos perfeitamente que toda a criação geme e como que sofre as dores de parto até ao presente. E não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito; nós próprios gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção como filhos, a libertação do nosso corpo.


* A criação espera a revelação de Deus.

Eis um texto que é também uma «boa notícia» reconfortante. É certo que o sofrimento é uma herança da nossa caducidade. No entanto, vamos, por causa disso, cair no desânimo, no desespero e na derrota? Com certeza que não - garante-nos um optimista S. Paulo - pois os sofrimentos por que passamos na vida presente não se comparam com a glória que teremos um dia por sermos filhos de Deus. Saberá porventura um pouco a exagero dizer que toda a criação como que experimenta as dores de parto, mas essa é apenas uma imagem para nos dizer que, perante o futuro que Deus nos prepara, de nada valem todos os sofrimentos a que possamos estar sujeitos. O trecho é muito claro. O que nos falta é aplicá-lo à nossa vida. Eu diria até que o melhor comentário o podemos ler, na mesma Carta aos Romanos, um pouco mais à frente: «Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus». A dificuldade está em descobrir essa vertente do sofrimento e das dificuldades que tecem a vida de todos os dias. Mas quem está, em termos vivenciais, convencido da relatividade do sofrimento, chega mesmo ao ponto de desejar ver-se livre dos grilhões do próprio corpo para poder assim estar mais livre e perto de Deus.

 

PARA ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO.

Evangelho (Mt 13,1-23):  ... Jesus falou-lhes de muitas coisas em parábolas. «O semeador foi semear a sua semente. Enquanto semeava, parte das sementes caiu à beira da estrada e vieram as aves e comeram-na. Outra caiu em sítio pedregoso. Como a terra não era muito profunda, as sementes brotaram logo, mas, quando despontou o sol, ficaram queimadas e, como não tinham raízes, secaram. Outras sementes caíram entre espinhos que cresceram e as sufocaram. E, finalmente, outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta. Aquele que tiver ouvidos, oiça!» (segue-se toda a explicação da parábola que me dispenso de copiar) ......


* A SEMENTE QUE CAI NA TERRA É A PALAVRA DE DEUS.

Começa com o Evangelho de hoje uma série de domingos cujo tema principal é constituído pelas parábolas. Dispenso-me de dizer que a semente é a Palavra de Deus, porque isso está claro na explicação que Jesus dá da mesma a pedido dos apóstolos. O núcleo essencial do trecho evangélico de hoje, à semelhança da primeira leitura, é a eficácia da Palavra de Deus, se bem que sujeita às condições de aceitação por parte de quem a ouve. Por outras palavras, os «protagonistas» desta Parábola são a semente e o terreno em que ela cai. No que ao semeador diz respeito, sabe-se que o seu papel é importante, na medida em que tem obrigação de lançar a semente à terra, mas a verdade é que a semente tem em si todas as potencialidades para se multiplicar, a partir do momento em que encontre terra onde possa desabrochar e produzir. Até os níveis de produtividade não são essenciais, porque a semente será eficaz mesmo quando não produz a cem por um, mas apenas a trinta por um. Não se poderá concluir daí que a Palavra de Deus, semeada no coração das pessoas, é eficaz mesmo quando produz apenas o mínimo? Seja como for, neste caso, um pormenor é importante: a semente só produz quando cai em boa terra. Neste aspecto, faz todo o sentido examinarmo-nos para saber se tudo fazemos para que o nosso coração não seja um caminho árido, para retirar as pedras que há na nossa vida, para arrancar os espinhos e as preocupações que sufocam a Palavra de Deus.

PARA ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO.

*A Palavra não volta ao Senhor sem produzir efeito.

 

 *A criação espera a revelação de Deus.  

 

 *O semeador saiu a semear a sua semente.

A SEMENTE 

QUE CAI 

NA TERRA 

É A PALAVRA 

DE DEUS.

  

  

Mateus reúne no capítulo 13 as parábolas que falam do Reino de Deus. Como é óbvio, as parábolas são comparações e, por isso, não devem ser interpretadas senão como comparações. O que interessa, pois, não são os pormenores em si, mas a mensagem essencial ou, como se costuma dizer, a lição.

 

  • A importância da Palavra 

    Pode parecer quase uma ofensa informar o leitor que o tema geral da liturgia da palavra de hoje é a própria «Palavra de Deus», tal é a evidência do asserto, dedutível das leituras em si. Por um lado, pelo que se refere ao «papel» de Deus, a palavra é eficaz: opera sempre e, nesse sentido, não há nada que a possa tornar infecunda, por assim dizer. Esta é, no fundo, a mensagem da 1ª leitura, uma das mais belas páginas da segunda parte do livro do profeta Isaías.

 

     Mas, por outro lado, também não deixa de ser verdade que, se há alguém que respeita «religiosamente» a liberdade do homem, é Deus. E, por isso, não deixa de ser uma realidade o facto de que a Palavra de Deus, em atenção à liberdade do homem, pode ser rejeitada. Isso aconteceu durante toda a história do Povo de Deus e continua a suceder na história dos homens de hoje e de todos os tempos. Mas também pode acontecer - e acontece realmente - que, quando alguém não ouve a sua Palavra, Deus se dirija a outros que a façam frutificar abundantemente. Ela continua a ser eficaz, embora em outros «terrenos».

  • A Palavra é experiência de vida

   O Deus apresentado e representado na Bíblia não é um Deus inventado pelos filósofos, que devemos acolher vencidos pelo peso da razão. Pois bem: também a Palavra de Deus não é um conjunto de teorias filosóficas.

 

   Já no Antigo Testamento, a Palavra de Deus é, antes de mais, um facto, uma experiência de vida. Deus fala directamente a homens escolhidos e, por intermédio deles, a todo o povo, mas fala também no interior do coração. Com a sua Palavra (que, de alguma forma, é a exteriorização de si mesmo, ou seja, como que a revelação da sua essência), Deus vai formando um povo especial. Quando chegar a altura apropriada, Ele vai revelar-se ainda mais claramente, pois a sua Palavra irá tornar-se presente de maneira visível: «O Verbo (a Palavra) far-se-á carne», como dirá o evangelista S. João no Prólogo do seu evangelho (cf. Jo 1,14).

   Ainda no Antigo Testamento, esta Palavra é como que personificada na figura da Sabedoria. É uma palavra que actua, que opera, que se move com poder. É como uma espécie de personagem que se mete na vida das pessoas e só volta para a sua origem após ter cumprido a sua missão junto dos homens...

  • A força agregadora da Palavra 

    Na história do Povo de Israel, e também na história da Igreja, as épocas de renovação levaram sempre a um reencontro, digamos assim, com a escuta e com o confronto com a Palavra de Deus. Ou, melhor, a escuta dessa Palavra é que provoca essa renovação. É o que acontece também hoje. Também hoje, como no tempo dos profetas e como no tempo de Jesus, é a Palavra que convoca e reúne a Igreja à volta do Pai. E é pelo aprofundamento dessa mesma Palavra que os cristãos tomam consciência de que formam a família de Deus.

 

    Essa Palavra é eficaz. Mas é evidente que a sua eficácia não é automática. Prova disso temo-la na parábola do semeador contada por Jesus. E, bem vistas as coisas, esta é uma ideia que está também implícita no pequeno trecho da primeira leitura. O terreno tem que estar preparado para que a semente da Palavra produza frutos abundantes em nós. De resto, é isso que está implícito na frase de Jesus: «Felizes os que escutam a minha Palavra e a põem em prática» (cf. Lc 11,28).

  • Indiferença em relação à Palavra 

    A atitude de recusa da Palavra de Deus por parte das pessoas no tempo de Jesus tem termo de comparação nos tempos de hoje na atitude de indiferença por parte do homem moderno. Às vezes, os pastores, os pregadores e os missionários têm a impressão de estar a falar uma língua, senão estrangeira, pelo menos estranha. Dever-se-á à indiferença de quem os escuta? Sem dúvida, mas não me parece que seja só isso. Não quer dizer que a culpa seja necessariamente de quem escuta. Também é preciso aprimorar a arte de semear, para que se aproveite ao máximo a semente.

 

    Os próprios cristãos terão, por vezes, a impressão que há um fosso intransponível entre aquilo que é a realidade de todos os dias e aquilo que lhes parece o «anacronismo» que lhes é anunciado nas assembleias eucarísticas. Ou seja, a Palavra de Deus como que lhes parece demasiado ligada a esquemas do passado, sem relação nenhuma com as exigências da vida presente.

    Tratar-se-á de desculpas para justificar um certo tipo de atitude de recusa perante a Palavra? Certamente é isso que se verifica em muitos casos, mas também temos que reconhecer que há um certo desfasamento entre a forma como a Palavra é anunciada e a vida quotidiana. É culpa da Palavra de Deus? Ou é só devido ao facto de o homem de hoje ainda não ter encontrado a correcta frequência de onda? Talvez encontremos na parábola do semeador alguma resposta a estas perguntas.

    De qualquer forma, no curso dos séculos, houve sempre falhas de sintonização e problemas de desfasamento. Sempre se insistiu (e isso é certamente uma coisa boa), mas quase exclusivamente (e isso é um mal) sobre o facto de que a Palavra é um «dado» que é preciso transmitir fielmente, como se faz com um depósito precioso. Não se insistiu, porém, bastante no facto de que a Palavra tem que ser «enterrada» lá bem na interioridade das pessoas para produzir alguma coisa, tem que ser semeada, que tem que ser assimilada e que (o que também é importante) nem sempre produz cem por um. Não se pode esquecer que, mesmo quando produz apenas trinta por um (ou mesmo menos do que isso), a Palavra de Deus já está a cumprir a sua missão; e que, talvez na próxima colheita, já seja possível obter sessenta por um; e que depois, em determinadas circunstâncias, chegue mesmo a produzir cem por um.

 

  • Mais que fonema, a Palavra é sinal

    É sabido que a linguagem humana não se confina ao código linguístico propriamente dito. Ou, por outra, a linguagem humana não é composta apenas de fonemas. Da linguagem humana fazem parte todos os outros sinais não linguísticos, também chamados paralinguísticos, que levam a uma melhor compreensão daquilo que são os conceitos ou ideias que se querem transmitir. Sem entrar em questões complicadas de ordem semântica (que não vêm ao caso), baste-nos considerar que é possível a transmissão de mensagens (ou de pelo menos parte delas), mesmo quando o receptor não seja possuidor do código linguístico do emissor. Mas esse não é o ideal.

 

   Pois bem, também estas noções são aplicáveis à Palavra de Deus, na medida em que a Palavra de Deus é mensagem de Deus, mas transmitida em linguagem humana. E, de há uns tempos a esta parte, tem-se compreendido melhor esta realidade. Tem-se descoberto, pouco a pouco, que o Deus da fé não se descobre apenas através da Palavra, mas também através de todos os sinais da natureza e dos eventos da história. Dizem os teólogos que a revelação de Deus é uma revelação histórica. E têm razão, porque nós não temos outra hipótese de ouvir essa Palavra a não ser inseridos na história. A vida vivida do povo de Deus é também terreno fértil para a manifestação de Deus.

  • A Palavra passada à vida

    Na práxis pastoral e na catequese, a experiência vivencial do homem vem sendo tomada cada vez mais como o terreno privilegiado em que a Palavra de Deus manifesta toda a sua riqueza e poder. E, como sempre, é também a Palavra de Deus que se adapta ao homem, na medida em que o homem é incapaz de lhe captar o sentido profundo duma vez só.

 

    Por outras palavras, a «encarnação» da Palavra de Deus na vida do homem não é apenas um processo divino; é também um processo também humano e, por isso, leva o seu tempo; como, de resto, qualquer outro tipo de aprendizagem ou «encarnação». Um dos efeitos da Palavra é provocar uma mudança de mentalidade, uma mudança de perspectiva, uma mudança da forma de ver o mundo. Mas seria irrealístico esperar que isso acontecesse dum momento para o outro, no espaço de um minuto, como que por encanto.

    A mensagem de Cristo deve iluminar a existência, mas vai seguir os «trâmites» ou processos naturais. Quer dizer, vai acontecer segundo a maneira de crescer do homem e de cada homem em concreto. É a mensagem de Deus que vai conferir à existência o seu significado, mas isso vai ser um processo gradual. De resto, só assim essa Palavra ressoa profundamente no interior da experiência do homem; não por culpa ou incapacidade da Palavra em si, mas por incapacidade do receptor que é o homem.

 

 

 

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 201
9

«A criação encontra-se em expetativa ansiosa,
aguardando a revelação dos filhos de Deus»
(Rm 8, 19)

Queridos irmãos e irmãs!

Todos os anos, por meio da Mãe Igreja, Deus «concede aos seus fiéis a graça de se prepararem, na alegria do coração purificado, para celebrar as festas pascais, a fim de que (…), participando nos mistérios da renovação cristã, alcancem a plenitude da filiação divina» (Prefácio I da Quaresma). Assim, de Páscoa em Páscoa, podemos caminhar para a realização da salvação que já recebemos, graças ao mistério pascal de Cristo: «De facto, foi na esperança que fomos salvos» (Rm 8, 24). Este mistério de salvação, já operante em nós durante a vida terrena, é um processo dinâmico que abrange também a história e toda a criação. São Paulo chega a dizer: «Até a criação se encontra em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). Nesta perspetiva, gostaria de oferecer algumas propostas de reflexão, que acompanhem o nosso caminho de conversão na próxima Quaresma.

1. A redenção da criação

A celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação, cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 29) é um dom inestimável da misericórdia de Deus.

Se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Espírito Santo (cf. Rm 8, 14), e sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção. Por isso, a criação – diz São Paulo – deseja de modo intensíssimo que se manifestem os filhos de Deus, isto é, que a vida daqueles que gozam da graça do mistério pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcançar o seu completo amadurecimento na redenção do próprio corpo humano. Quando a caridade de Cristo transfigura a vida dos santos – espírito, alma e corpo –, estes rendem louvor a Deus e, com a oração, a contemplação e a arte, envolvem nisto também as criaturas, como demonstra admiravelmente o «Cântico do irmão sol», de São Francisco de Assis (cf. Encíclica Laudato si’, 87). Neste mundo, porém, a harmonia gerada pela redenção continua ainda – e sempre estará – ameaçada pela força negativa do pecado e da morte.

2. A força destruidora do pecado

Com efeito, quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz. Então sobrepõe-se a intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados que, no livro da Sabedoria, se atribuem aos ímpios, ou seja, a quantos não têm Deus como ponto de referência das suas ações, nem uma esperança para o futuro (cf. 2, 1-11). Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.

Como sabemos, a causa de todo o mal é o pecado, que, desde a sua aparição no meio dos homens, interrompeu a comunhão com Deus, com os outros e com a criação, à qual nos encontramos ligados antes de mais nada através do nosso corpo. Rompendo-se a comunhão com Deus, acabou por falir também a relação harmoniosa dos seres humanos com o meio ambiente, onde estão chamados a viver, a ponto de o jardim se transformar num deserto (cf. Gn 3, 17-18). Trata-se daquele pecado que leva o homem a considerar-se como deus da criação, a sentir-se o seu senhor absoluto e a usá-la, não para o fim querido pelo Criador, mas para interesse próprio em detrimento das criaturas e dos outros.

Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado – que habita no coração do homem (cf. Mc 7, 20-23), manifestando-se como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros e muitas vezes também do próprio – leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.

3. A força sanadora do arrependimento e do perdão

Por isso, a criação tem impelente necessidade que se revelem os filhos de Deus, aqueles que se tornaram «nova criação»: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5, 17). Com efeito, com a sua manifestação, a própria criação pode também «fazer páscoa»: abrir-se para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). E o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal.

Esta «impaciência», esta expetativa da criação ver-se-á satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto é, quando os cristãos e todos os homens entrarem decididamente neste «parto» que é a conversão. Juntamente connosco, toda a criação é chamada a sair «da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). A Quaresma é sinal sacramental desta conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.

Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade.

Queridos irmãos e irmãs, a «quaresma» do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus que era antes do pecado das origens (cf. Mc 1,12-13; Is 51,3). Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação, que «será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora.

Vaticano, Festa de São Francisco de Assis, 4 de outubro de 2018.

Franciscus

 

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Veneráveis Irmãos no episcopado e no sacerdócio,
Caríssimos Irmãos e Irmãs!

  1. O dia do Senhor — como foi definido o domingo, desde os tempos apostólicos —,(1) mereceu sempre, na história da Igreja, uma consideração privilegiada devido à sua estreita conexão com o próprio núcleo do mistério cristão. O domingo, de facto, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n'Ele da primeira criação e o início da « nova criação » (cf. 2 Cor 5,17). É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do « último dia », quando Cristo vier na glória (cf. Act 1,11; 1 Tes 4,13-17) e renovar todas as coisas (cf. Ap 21,5).

   Ao domingo, portanto, aplica-se, com muito acerto, a exclamação do Salmista: « Este é o dia que Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria » (118 [117], 24). Este convite à alegria, que a liturgia de Páscoa assume como próprio, traz em si o sinal daquele alvoroço que se apoderou das mulheres — elas que tinham assistido à crucifixão de Cristo — quando, dirigindo-se ao sepulcro « muito cedo, no primeiro dia depois di sábado » (Mc 16,2), o encontraram vazio. É convite a reviver, de algum modo, a experiência dos dois discípulos de Emaús, que sentiram « o coração a arder no peito », quando o Ressuscitado caminhava com eles, explicando as Escrituras e revelando-Se ao « partir do pão » (cf. Lc 24,32.35). É o eco da alegria, ao princípio hesitante e depois incontida, que os Apóstolos experimentaram na tarde daquele mesmo dia, quando foram visitados por Jesus ressuscitado e receberam o dom da sua paz e do seu Espírito (cf. Jo 20,1923).

  1. A ressurreição de Jesus é o dado primordial sobre o qual se apoia a fé cristã (cf. 1 Cor 15,14): estupenda realidade, captada plenamente à luz da fé, mas comprovada historicamente por aqueles que tiveram o privilégio de ver o Senhor ressuscitado; acontecimento admirável que não só se insere, de modo absolutamente singular, na história dos homens, mas que se coloca no centro do mistério do tempo. Com efeito, a Cristo « pertence o tempo e a eternidade », como lembra o rito de preparação do círio pascal, na sugestiva liturgia da noite de Páscoa. Por isso, a Igreja, ao comemorar, não só uma vez ao ano mas em cada domingo, o dia da ressurreição de Cristo, deseja indicar a cada geração aquilo que constitui o eixo fundamental da história, ao qual fazem referência o mistério das origens e o do destino final do mundo.

   Portanto, pode-se com razão dizer, como sugere a homilia de um autor do século IV, que o « dia do Senhor » é o « senhor dos dias ».(2) Todos os que tiveram a graça de crer no Senhor ressuscitado não podem deixar de acolher o significado deste dia semanal, com o grande entusiasmo que fazia S. Jerónimo dizer: « O domingo é o dia da ressurreição, é o dia dos cristãos, é o nosso dia ».(3) De facto, ele é para os cristãos o « principal dia de festa »,(4) estabelecido não só para dividir a sucessão do tempo, mas para revelar o seu sentido profundo.

  1. A sua importância fundamental, reconhecida continuamente ao longo de dois mil anos de história, foi reafirmada vigorosamente pelo Concílio Vaticano II: « Por tradição apostólica, que nasceu do próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que bem se denomina do Senhor ou domingo ».(5) Paulo VI ressaltou novamente a sua importância, quando aprovou o novo Calendário Geral romano e as Normas universais que regulam o ordenamento do Ano Litúrgico.(6) A iminência do terceiro milénio, ao solicitar os crentes a reflectirem, à luz de Cristo, sobre o caminho da história, convida-os também a redescobrir, com maior ímpeto, o sentido do domingo: o seu « mistério », o valor da sua celebração, o seu significado para a existência cristã e humana.

   Com satisfação, vou tomando conhecimento das inúmeras intervenções do Magistério e das iniciativas pastorais que, vós, veneráveis Irmãos no episcopado, quer individualmente quer em conjunto — coadjuvados pelo vosso clero — realizastes sobre este tema importante nestes anos pós-conciliares. No limiar do Grande Jubileu do ano 2000, quis oferecer-vos esta Carta Apostólica para alentar o vosso empenho pastoral num sector tão vital. Mas simultaneamente desejo dirigir-me a todos vós, caríssimos fiéis, tornando-me de algum modo presente espiritualmente nas várias comunidades onde, cada domingo, vos reunis com os vossos respetivos Pastores para celebrar a Eucaristia e o « dia do Senhor ». Muitas das reflexões e sentimentos que animam esta Carta Apostólica maturaram durante o meu serviço episcopal em Cracóvia e mais tarde, depois de ter assumido o ministério de Bispo de Roma e Sucessor de Pedro, nas visitas às paróquias romanas, realizadas com regularidade precisamente nos domingos dos diversos períodos do ano litúrgico. Deste modo, parece-me prosseguir o diálogo vivo que gosto de manter com os fiéis, refletindo convosco sobre o sentido do domingo e sublinhando as razões para vivê-lo como verdadeiro « dia do Senhor », inclusivamente nas novas circunstâncias do nosso tempo.

  1. Ninguém desconhece, com efeito, que, num passado relativamente recente, a « santificação » do domingo era facilitada, nos países de tradição cristã, por uma ampla participação popular e, inclusive, pela organização da sociedade civil, que previa o descanso dominical como ponto indiscutível na legislação relativa às várias actividades laborativas. Hoje, porém, mesmo nos países onde as leis sancionam o carácter festivo deste dia, a evolução das condições socioeconómicas acabou por modificar profundamente os comportamentos coletivos e, consequentemente, a fisionomia do domingo. Impôs-se amplamente o costume do « fim de semana », entendido como momento semanal de distensão, transcorrido, talvez, longe da morada habitual e caracterizado, com frequência, pela participação em atividades culturais, políticas e desportivas, cuja realização coincide precisamente com os dias festivos. Trata-se de um fenómeno social e cultural que não deixa, por certo, de ter elementos positivos, na medida em que pode contribuir, no respeito de valores autênticos, para o desenvolvimento humano e o progresso no conjunto da vida social. Isto é devido, não só à necessidade do descanso, mas também à exigência de « festejar » que está dentro do ser humano. Infelizmente, quando o domingo perde o significado original e se reduz a puro « fim de semana », pode acontecer que o homem permaneça cerrado num horizonte tão restrito, que não mais lhe permite ver o « céu ». Então, mesmo bem trajado, torna-se intimamente incapaz de « festejar ».(7)

   Aos discípulos de Cristo, contudo, é-lhes pedido que não confundam a celebração do domingo, que deve ser uma verdadeira santificação do dia Senhor, com o « fim de semana » entendido fundamentalmente como tempo de mero repouso ou de diversão. Urge, a este respeito, uma autêntica maturidade espiritual, que ajude os cristãos a « serem eles próprios », plenamente coerentes com o dom da fé, sempre prontos a mostrar a esperança neles depositada (cf. 1 Ped 3,15). Isto implica também uma compreensão mais profunda do domingo, para poder vivê-lo, inclusivamente em situações difíceis, com plena docilidade ao Espírito Santo.

  1. Deste ponto de vista, a situação apresenta-se bastante diversificada. Por um lado, temos o exemplo de alguns Igrejas jovens que demonstram com quanto fervor seja possível animar a celebração do domingo, tanto nas cidades como nas aldeias mais afastadas. Ao contrário, noutras regiões, por causa das dificuldades sociológicas mencionadas e talvez da falta de fortes motivações de fé, regista-se uma percentagem significativamente baixa de participantes na liturgia dominical. Na consciência de muitos fiéis parece enfraquecer não só o sentido da centralidade da Eucaristia, mas até mesmo o sentido do dever de dar graças ao Senhor, rezando-Lhe unido com os demais no seio da comunidade eclesial.

   A tudo isto há que acrescentar que, não somente nos países de missão, mas também nos de antiga evangelização, pela insuficiência de sacerdotes, não se pode, às vezes, garantir a celebração eucarística dominical em todas as comunidades.

  1. Diante deste cenário de novas situações e questões anexas, parece hoje mais necessário que nunca recuperar as profundas motivações doutrinais que estão na base do preceito eclesial, para que apareça bem claro a todos os fiéis o valor imprescindível do domingo na vida cristã. Agindo assim, prosseguimos no rasto da tradição perene da Igreja, evocada firmemente pelo Concílio Vaticano II quando ensinou que, ao domingo, « os fiéis devem reunir-se para participarem na Eucaristia e ouvirem a palavra de Deus, e assim recordarem a Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que os "regenerou para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos" (1 Ped 1,3) ».(8)
  2. Com efeito, o dever de santificar o domingo, sobretudo com a participação na Eucaristia e com um repouso permeado de alegria cristã e de fraternidade, é fácil de compreender se se consideram as múltiplas dimensões deste dia, que serão objecto da nossa atenção na presente Carta.

   O domingo é um dia que está no âmago mesmo da vida cristã. Se, desde o início do meu Pontificado, não me cansei de repetir: « Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo »,(9) hoje neste mesmo sentido, gostaria de convidar vivamente a todos a redescobrirem o domingo: Não tenhais medo de dar o vosso tempo a Cristo! Sim, abramos o nosso tempo a Cristo, para que Ele possa iluminá-lo e dirigi-lo. É Ele quem conhece o segredo do tempo e o segredo da eternidade, e nos entrega o « seu dia », como um dom sempre novo do seu amor. Há-de-se implorar a graça da descoberta sempre mais profunda deste dia, não só para viver em plenitude as exigências próprias da fé, mas também para dar resposta concreta aos anseios íntimos e verdadeiros existentes em todo ser humano. O tempo dado a Cristo, nunca é tempo perdido, mas tempo conquistado para a profunda humanização das nossas relações e da nossa vida.