I DOMINGO DA QUARESMA
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1ª leitura (Gn 2,7-9;3,1-7): O Senhor Deus formou o homem do pó da terra. Insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida e o homem transformou-se em ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, ao Oriente, e aí colocou o homem que tinha formado. O Senhor Deus fez brotar do solo todo o tipo de árvores agradáveis à vista, que davam saborosos frutos para comer. No meio do jardim, estava a árvore da vida, bem como a árvore do conhecimento do bem e do mal... Ora, a serpente era o mais astuto dos animais selvagens que o Senhor Deus fizera. E perguntou à mulher: «É verdade que Deus vos proibiu de comer do fruto de alguma árvore do jardim?». A mulher respondeu: «Podemos comer do fruto de todas as árvores do jardim, excepto do fruto da árvore que está no meio do jardim. Deus disse-nos que nunca devemos comer, nem sequer tocar nela, pois, se o fizermos, morremos». Mas a serpente retorquiu à mulher: «Não, não morrereis nada! Deus disse isso porque sabe que, no dia em que comerdes, se vos abrirão os olhos e sereis como Ele, ou seja, ficareis a conhecer o bem e o mal». A mulher achou que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de aspecto atraente, e pensou como seria agradável alcançar a sabedoria. Então pegou no fruto, comeu, deu dele também ao seu marido, que estava junto dela e que também comeu. Então abriram-se os olhos aos dois e reconheceram que estavam nus. * Não comas da árvore do bem e do mal. Basta ler com um pouco de atenção para descobrir logo que a linguagem é claramente simbólica. Mas isso não significa que seja difícil de compreender. O simbolismo faz parte da nossa maneira de nos expressarmos. Aliás, eu suponho que, nos tempos que correm, já haverá muito menos gente que leve tudo à letra. Seja como for, mesmo neste caso de interpretação literal, não consigo explicar onde algumas pessoas foram encontrar a questão da maçã para explicar o pecado original, porque no texto se fala é de «árvore do bem e do mal» (o que, claramente, não existe senão como uma imagem simbólica). Agora, independentemente do aspecto um tanto folclórico, uma coisa é certa: este texto bíblico trata dum dos problemas mais complicados da humanidade. E este pode ser expresso com uma pergunta simples: De onde é que vem o mal que atravessa todo o tecido da humanidade? Com várias imagens, o autor diz que o grande mal consiste em o homem se recusar a aceitar a Deus como padrão da moralidade, pretendendo ele determinar por si mesmo o que é bem e o que é mal. PARA ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO. 2ª leitura (Rm 5,12-19): O pecado entrou no mundo por um só homem e, com o pecado, entrou a morte. Como resultado, a morte atingiu todos os homens, uma vez que todos pecaram. Antes da Lei, já existia o pecado no mundo; só que o pecado não pode ser imputado senão quando há Lei. Seja como for, a morte reinou, desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não tinham pecado como Adão, que é figura daquele que havia de vir. Mas, o que se passa é que o dom da graça não é como o pecado (de Adão). Se é verdade que, por causa da falta dum só, morreram todos, com muito mais razão é eficaz a graça de Deus; graça que, oferecida por meio dum só homem, Jesus Cristo, foi derramada sobre todos em abundância. E também com o dom não acontece o mesmo que acontece com as consequências do pecado. Com efeito, o julgamento que partiu dum só teve como resultado a condenação, enquanto que o dom gratuito, que partiu de muitas faltas, teve como resultado a justificação. Se, por causa da falta de um só, se iniciou o reino da morte, com mais razão, por meio de um só, Jesus Cristo, hão-de reinar na vida aqueles que recebem em abundância a graça e o dom da justiça... De facto, assim como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só todos se hão-de tornar justos. * A graça de Cristo derramada em abundância. Adão, com o seu pecado, introduziu no mundo o poder do mal, atraindo assim sobre si um juízo de condenação. Participantes e solidários com ele na natureza humana, todos nós herdámos as consequências desse pecado. Para romper essa espécie de «círculo vicioso», tinha que haver alguém que, embora participando também ele da humanidade, tivesse, ao mesmo tempo, a capacidade de vencer o poder do mal. Assim, em Adão, participamos todos na natureza decaída e na condição de criaturas sujeitas à morte; em Cristo, porém, somos participantes da natureza da graça e na condição de novas criaturas destinadas à vida que não tem fim, porque «onde abundou o pecado, superabundou a graça».
PARA ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO. Evangelho (Mt 4,1-11): O Espírito conduziu Jesus ao deserto, onde foi tentado pelo diabo. Depois de quarenta dias e quarenta noites de jejum, por fim, teve fome. Então, o tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se convertam em pão». Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus». Então, o diabo conduziu-o ao pináculo do templo da cidade santa e disse-lhe: «Se és o Filho de Deus, lança-te daqui a baixo, pois está escrito: Deus dará a teu respeito ordens aos seus anjos para que eles te sustentem nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra». Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!». Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe os reinos do mundo em todo o seu esplendor, disse-lhe: «Tudo te darei se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe então Jesus: «Vai-te embora, Satanás, pois está escrito: Adorará o Senhor, teu Deus, e só a Ele prestarás culto». Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos para o servir. * Só a Deus prestarás culto. Depois do baptismo no Rio Jordão, Jesus inicia a sua missão pública passando pelo deserto, onde é posta à prova a sua adesão à vontade do Pai. Assumindo em si o novo Israel que está a nascer, Jesus não se deixa nunca separar de Deus. Nesta perspectiva, esta passagem evangélica é, justamente, o oposto da primeira leitura, em que os «primeiros pais» não resistem ao combate do inimigo espiritual, que é a serpente infernal, o mentiroso, Satanás. Se se examinar bem o conteúdo das tentações, todo ele consiste na tentativa do Diabo em levar Jesus a colocar como critério da sua vida não a vontade de Deus, mas sim a satisfação das suas próprias necessidades, a sobrevalorização da sua personalidade e a procura de outros pontos de referência que não Deus. E, no fundo, é sempre esta a grande tentação do homem: julgar que tem o poder de construir o seu destino sem nenhum outro ponto de referência que não seja a sua própria pessoa. PARA ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO. |
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* A criação e o pecado; a ordem e a desordem.
* Onde abundou o pecado, superabundou a graça.
* Jesus jejua quarenta dias no deserto, onde é tentado. |
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A passagem evangélica acima, mesmo para um leigo na matéria minimamente atento, denota uma vertente de construção literária. E uma das consequências imediatas é a necessidade de a não interpretar à letra, mas sim segundo a «tese» que o autor pretende demonstrar.
§ Uma página polémica
Antes de mais, diga-se que, para entender correctamente a primeira leitura, extraída do livro do Génesis, é preciso tirar da ideia que as primeiras páginas da Bíblia - e não só essas - sejam pura e simplesmente relatos históricos como os entendemos hoje. Para além de se tratar duma linguagem altamente simbólica, temos aí também o estilo sapiencial, no sentido filosófico do termo, digamos assim, na medida em que o fim principal do autor sagrado é ir à razão das coisas, servindo-se para isso da linguagem que julgava mais adaptada às pessoas concretas a quem se dirigia.
No caso do trecho escolhido para hoje, a narrativa simbólica enfrenta um dos mais sensíveis temas e interrogações da humanidade. O autor, no ambiente cultural em que lhe é dado viver, vai à «descoberta» da origem do mal no mundo, mas não chega a uma conclusão «científica», como nós gostaríamos; até porque não a possui, pelo simples motivo de que a ciência como nós a entendemos hoje não existia. Seja como for, mesmo que, por hipótese, o autor estivesse na posse duma conclusão científica, continuaria de pé o facto de que ele não tinha por objectivo prioritário transmitir uma informação de carácter científico.
De resto, na vida, nem tudo é necessariamente científico. E, por outro lado, também não era isso o que os seus leitores esperavam. Além do mais, se reflectirmos um pouco, chegamos à conclusão de que, como regra, também não é isso o que nós, supostamente imbuídos de espírito científico, esperamos duma história.
E, para dizer a verdade, convenhamos que, quando se constrói uma descrição em que se põe uma serpente a falar, Deus a passear pelo jardim do Éden, quando se inventa uma «árvore do bem e do mal», é mais que evidente que se trata duma história cujo objectivo principal é passar, digamos assim, uma determinada mensagem. Parece-me que só não entende isso quem não quer entender.
§ À procura duma explicação
É obvio que qualquer um de nós gostaria de ver satisfeita a sua curiosidade em saber o que realmente aconteceu nos tempos primordiais da história da humanidade e do universo em geral (e os «cientistas» bem procuram fazer por isso!). Mas, por muito que custe, não é possível sabê-lo. Nem sequer hoje, com todos os meios científicos à nossa disposição. Muito menos o podia saber o autor primitivo desse trecho do Génesis. Sim, isso é um facto: apesar do avanço da ciência, mesmo nos dias de hoje, não temos senão meras hipóteses de trabalho e de estudo.
No entanto, a questão de como tudo começou sempre se pôs; desde o início; mesmo que não em termos científicos. É, pois, natural, ou pelo menos legítimo, que também o autor do Génesis tenha procurado dar uma resposta à ânsia das pessoas do seu tempo. Ora, como não podia deixar de ser, trata-se duma explicação à escala e à medida dos seus próprios conhecimentos de autor popular e também à medida da capacidade de compreensão dos seus leitores ou ouvintes. Enfim, trata-se duma explicação cujo objectivo era procurar compreender o fenómeno da natureza complexa do homem, um pouco anjo e um pouco demónio. Para isso, o autor tem a ideia de recorrer à linguagem simbólica e floreada.
É um tipo de linguagem que possivelmente até terá sido clara para os destinatários de então (caso contrário, com toda a probabilidade, o autor - ou autores - não a teria utilizado). Mas já não o será tanto para os homens de hoje, mais habituados a outro tipo de linguagem e de símbolos. De qualquer forma, uma conclusão geral dedutível do texto (e nisso talvez encontremos o conteúdo da mensagem que o autor quis transmitir) é que o homem não soube ser fiel ao projecto inicial de Deus e, por isso mesmo, teve que arrostar com as consequências.
§ Proposta de Deus – resposta do homem
Simplificando um pouco as coisas, talvez se possa dizer que a liturgia da palavra deste dia é fundamentalmente uma meditação religiosa sobre o destino do homem. Segundo o livro Génesis (precisamente o texto em análise), Deus criou o homem para viver em diálogo de amor com Ele (diálogo simbolizado pela harmonia e amenidade do jardim do Éden). Mas, o relacionamento de amor supõe a liberdade. Ora, ao criá-lo livre, Deus quis que o homem fosse também responsável pelo seu próprio destino. Sendo Deus o primeiro «responsável» pela criação, tinha todo o direito, digamos assim, de dotar o homem do dom da inteligência e da vontade/liberdade, condição para lhe exigir uma opção.
Só uma coisa era proibida ao homem: estabelecer e decidir ele mesmo o que era bem e o que era mal. É essa a ideia veiculada pelo simbolismo da árvore do bem e do mal. Como me parece evidente, a árvore do bem e do mal é claramente uma árvore que existe apenas «no papel» (e é, portanto, uma imagem simbólica). Não há - nem nunca houve - nenhuma árvore conhecida na natureza com esse nome. Ela é, portanto, um símbolo que «funciona» como instrumento para veicular uma ideia.
Na visão do autor, é prerrogativa exclusiva de Deus determinar a «moral» do homem. Só que este, em todo o caso, quis ser independente de Deus e, nessa ordem de ideias, decidir, determinar, pela própria iniciativa, o que era bem e o que era mal. Nisso é que consiste a sua opção de fundo contra a «ordem estabelecida». E é exactamente isso o que o homem, infelizmente, continua a fazer hoje.
Em resumo, pode-se afirmar que, no relacionamento do homem com Deus, é necessário libertar-nos de duas concepções erradas e opostas: primeira, a de que o homem esteja única e irremediavelmente sujeito a forças naturais ou históricas (como se a sua presença no mundo fosse apenas fruto do acaso); e, em segundo lugar, a de que o homem seja, ao contrário, árbitro absoluto do próprio destino, padrão do bem e do mal, dominador das forças e dos segredos cósmicos, enfim, protagonista único da história...
Aliás, o facto de o homem querer e proclamar ser a «razão última» de tudo não significa que realmente o seja. É certo que o autor do trecho bíblico não podia usar este tipo de linguagem, que lhe era totalmente desconhecido. Seja como for, se, à luz da fé, a grandeza do homem consiste na sua referência a Deus (em linguagem de hoje foi isso mesmo que o autor ou autores do Génesis quiseram dizer), quando o homem se põe no lugar de Deus para o substituir, então a sua grandeza fica reduzida à sua própria dimensão de homem. O que, para dizer a verdade, pelas provas que tem dado, não é lá grande coisa!
§ Uma opção que se repete
Como sabemos, a Bíblia apresenta o homem como criatura de Deus, modelada por Ele com amor, «animada» com o seu sopro vital, colocada num jardim de harmonia e ordem. Com o pecado, dá entrada no mundo a desordem. O resultado, ao contrário do que se pretendia («sereis como deuses»), é a consciência da própria nudez, ou seja, da própria incapacidade radical. As consequências – a vergonha, o sofrimento, a morte - são conhecidas; logo a partir do primeiro momento e sempre que o homem se quer assumir como dono único e supremo do seu destino e de todo o universo.
Felizmente, Deus não desiste e retoma contínua e pacientemente o seu projecto. E é logo o próprio autor dos primeiros capítulos do Génesis que o deixa bem claro quando afirma: «Farei reinar a inimizade entre ti (serpente) e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Mas esta esmagar-te-á a cabeça» (cf. Gn 3,15). Por outras palavras, às vezes, poderá dar-nos a impressão que, depois da queda, Deus como que põe o seu «modelo» (o homem por Ele criado) no armazém das inutilidades, mas isso não passa apenas de impressão, porque, não obstante tudo, Deus não desiste do homem em nenhuma circunstância.
Através da sua história, o povo hebreu no seu conjunto é submetido à mesma prova da opção entre o bem e o mal, e também ele falha. Como os seus antepassados na humanidade, também ele pretende arvorar-se em padrão moral da sua própria conduta. Na sua vida individual e social, nos momentos mais difíceis da sua história, relega para segundo plano o Deus que o tinha libertado das mãos dos egípcios, bem como de outros povos inimigos. E, ciclicamente, o povo procura deuses mais imediatos e menos exigentes, mais manobráveis; estabelece alianças com povos pagãos; enfim, crê poder depositar toda a sua confiança nos bens terrenos ou nas garantias ou alianças humanas. Mas, historicamente, o resultado foi sempre o que tristemente se sabe.
§ Uma confiança sem condições
Um outro exemplo dessa prova (o tentador continua a ser o mesmo, embora noutra roupagem) temo-lo na tentação a que Jesus é sujeito durante os «quarenta dias de jejum e penitência» no deserto (cf. texto evangélico hodierno). Mas o desfecho é completamente diferente. Apoiando-se totalmente na palavra de Deus («está escrito»), Jesus sai vitorioso da prova. É a resposta da fidelidade ao plano de Deus, resposta que todo o homem deveria dar, submetendo-se à vontade e supremacia do querer de Deus.
No fundo, as tentações de Jesus no deserto (que são o paradigma da tentação humana como tal) resumem-se a isto: o homem julgar que é possível sacrificar tudo, mesmo Deus, à ânsia de ter e de se constituir como razão de ser de toda a vida e do que ela implica. A liturgia da palavra de hoje convida, pois, cada um a fazer e a viver a mesma opção de fundo. Não há outra alternativa: ou apoiar-se inteiramente em Deus, ou então apoiar-se nas coisas e nas criaturas e aceitar as consequências.
Seria uma aspiração legítima dar resposta à curiosidade que nos vem da leitura do texto de Mateus escolhido para este domingo; nomeadamente se as coisas se passaram realmente como são contadas (seria legítima a mesma curiosidade em relação ao relato do Génesis). Neste ponto concreto do episódio das tentações, a resposta aceite pela quase totalidade dos especialistas é que as coisas não se passaram exactamente à letra, pois se trata dum género literário com uma determinada finalidade moral. Por outro lado, é conveniente acrescentar que essa curiosidade, embora legítima, talvez nos desviasse a atenção do essencial.
A partir do relato das «tentações de Jesus», seria até possível fazer considerações e aplicações parenéticas de elevado teor oratório para exortar ao cultivo da virtude, mas, se calhar, não é isso que mais interessa. No fundo, as chamadas «tentações» reduzem-se a uma: a tentação primordial a que está sujeito o homem de todos os tempos; ou seja, o querer constituir-se como padrão do comportamento moral, para isso pondo de lado o próprio Deus.
§ A tentação suprema
É isso mesmo! A mais terrível e temível tentação não é, em primeiro lugar, a que nasce da «carne e do mundo» (isso poderá eventualmente não passar de fraqueza), mas sim a que decorre duma situação que supõe que as coisas e os acontecimentos não parecem ter nada a ver com Deus. É por isso que, segundo a mensagem bíblica, o maior pecado é sempre o da idolatria, ou seja, o de ir à procura de outros (falsos) deuses, seja qual for o seu nome. É aí que começam os problemas. Porque é nessas situações que a aposta e a confiança ilimitada em Deus são mais necessárias.
A este propósito, alguém escreveu o seguinte: «A confiança ilimitada é o único meio de salvação. Mas essa confina com a revolta contra Deus. Tais situações são a tentação suprema para o espírito. Essas atacam a fé na sua própria raiz, na sua própria essência. Por isso se compreende que Cristo tenha sugerido, por assim dizer, aos cristãos para fugir em tempo de perseguição (cf. Mt 10,23). A não intervenção de Deus sente-se nesses momentos duma maneira tão cruel que pode mesmo destruir a fé. Não deve, portanto, admirar que a Igreja e os cristãos rezem todos os dias para que Deus abandone o seu silêncio e abrevie o tempo em que faça sentir o seu poder» (Christian Duquoc). O texto pode parecer difícil, mas é só se o lermos distraídos.
§ Quaresma: tempo de exame
A Quaresma (um período de quarenta dias de preparação para a Páscoa, como o tempo de jejum de Jesus foi tempo de preparação para a sua vida pública), mais que um tempo cronológico (que isso para o autor bíblico é secundário), é o «tempo por excelência» destinado a verificar a nossa fidelidade ou não ao projecto de Deus. Jesus foi fiel a esse projecto de Deus. E connosco o que é que acontece? Nós podemos tê-lo atraiçoado, mutilado ou pelo menos distorcido pela nossa covardia, interesses, hipocrisia, cansaço, por não termos sido capazes de vencer a tentação que o mundo de hoje nos coloca constantemente: a de prescindir de Deus.
Cada civilização é caracterizada por elementos bons e deletérios. Uma das características deletérias da sociedade de hoje é, por exemplo, o desprezo e o combate aos valores éticos, morais e espirituais. A sujeição total, eu diria quase absoluta, ao que é terreno, aos bens e aos valores relacionados com esses bens; a tirania do eficientismo, que é gerado e alimentado pelo ídolo «produzir/consumir/produzir» (que é a espiral implacável e destruidora de todos os valores humanos); o egoísmo, a exploração dos outros e a escalada à carreira, pelo que os outros são mais um adversário a abater, um concorrente a superar... eis os males que é preciso combater, a tentação que é preciso ultrapassar sempre.
MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
O PAPA BENTO XVI
PARA A QUARESMA DE 2008
«Cristo fez-Se pobre por vós» (cf. 2 Cor 8, 9)
Queridos irmãos e irmãs!
1. Todos os anos, a Quaresma oferece-nos uma providencial ocasião para aprofundar o sentido e o valor do nosso ser de cristãos, e estimula-nos a redescobrir a misericórdia de Deus, a fim de nos tornarmos, por nossa vez, mais misericordiosos para com os irmãos. No tempo quaresmal, a Igreja tem o cuidado de propor alguns compromissos específicos que ajudem, concretamente, os fiéis neste processo de renovação interior: tais são a oração, o jejum e a esmola. Este ano, na habitual Mensagem quaresmal, desejo deter-me sobre a prática da esmola, que representa uma forma concreta de socorrer quem se encontra em necessidade e, ao mesmo tempo, uma prática ascética para se libertar da afeição aos bens terrenos. Jesus declara, de maneira peremptória, quão forte é a atracção das riquezas materiais e como deve ser clara a nossa decisão de não as idolatrar, quando afirma: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lc 16, 13). A esmola ajuda-nos a vencer esta incessante tentação, educando-nos para ir ao encontro das necessidades do próximo e partilhar com os outros aquilo que, por bondade divina, possuímos. Tal é a finalidade das colectas especiais para os pobres, que são promovidas em muitas partes do mundo durante a Quaresma. Desta forma, a purificação interior é corroborada por um gesto de comunhão eclesial, como acontecia já na Igreja primitiva. São Paulo fala disto mesmo quando, nas suas Cartas, se refere à colecta para a comunidade de Jerusalém (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27).
2. Segundo o ensinamento evangélico, não somos proprietários mas administradores dos bens que possuímos: assim, estes não devem ser considerados propriedade exclusiva, mas meios através dos quais o Senhor chama cada um de nós a fazer-se intermediário da sua providência junto do próximo. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, os bens materiais possuem um valor social, exigido pelo princípio do seu destino universal (cf. n. 2403).
É evidente, no Evangelho, a admoestação que Jesus faz a quem possui e usa só para si as riquezas terrenas. À vista das multidões carentes de tudo, que passam fome, adquirem o tom de forte reprovação estas palavras de São João: «Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?» (1 Jo 3, 17). Entretanto, este apelo à partilha ressoa, com maior eloquência, nos Países cuja população é composta, na sua maioria, por cristãos, porque é ainda mais grave a sua responsabilidade face às multidões que penam na indigência e no abandono. Socorrê-las é um dever de justiça, ainda antes de ser um gesto de caridade.
3. O Evangelho ressalta uma característica típica da esmola cristã: deve ficar escondida. «Que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita», diz Jesus, «a fim de que a tua esmola permaneça em segredo» (Mt 6, 3-4). E, pouco antes, tinha dito que não devemos vangloriar-nos das nossas boas acções, para não corrermos o risco de ficar privados da recompensa celeste (cf. Mt 6, 1-2). A preocupação do discípulo é que tudo seja para a maior glória de Deus. Jesus admoesta: «Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5, 16). Portanto, tudo deve ser realizado para glória de Deus, e não nossa. Queridos irmãos e irmãs, que esta consciência acompanhe cada gesto de ajuda ao próximo evitando que se transforme num meio nos pormos em destaque. Se, ao praticarmos uma boa acção, não tivermos como finalidade a glória de Deus e o verdadeiro bem dos irmãos, mas visarmos antes uma compensação de interesse pessoal ou simplesmente de louvor, colocamo-nos fora da lógica evangélica. Na moderna sociedade da imagem, é preciso redobrar de atenção, dado que esta tentação é frequente. A esmola evangélica não é simples filantropia: trata-se antes de uma expressão concreta da caridade, virtude teologal que exige a conversão interior ao amor de Deus e dos irmãos, à imitação de Jesus Cristo, que, ao morrer na cruz, Se entregou totalmente por nós. Como não agradecer a Deus por tantas pessoas que no silêncio, longe dos reflectores da sociedade mediática, realizam com este espírito generosas acções de apoio ao próximo em dificuldade? De pouco serve dar os próprios bens aos outros, se o coração se ensoberbece com isso: tal é o motivo por que não procura um reconhecimento humano para as obras de misericórdia realizadas quem sabe que Deus «vê no segredo» e no segredo recompensará.
4. Convidando-nos a ver a esmola com um olhar mais profundo que transcenda a dimensão meramente material, a Escritura ensina-nos que há mais alegria em dar do que em receber (cf. Act 20, 35). Quando agimos com amor, exprimimos a verdade do nosso ser: de facto, fomos criados a fim de vivermos não para nós próprios, mas para Deus e para os irmãos (cf. 2 Cor 5, 15). Todas as vezes que por amor de Deus partilhamos os nossos bens com o próximo necessitado, experimentamos que a plenitude de vida provém do amor e tudo nos retorna como bênção sob forma de paz, satisfação interior e alegria. O Pai celeste recompensa as nossas esmolas com a sua alegria. Mais ainda: São Pedro cita, entre os frutos espirituais da esmola, o perdão dos pecados. «A caridade – escreve ele – cobre a multidão dos pecados» (1 Pd 4, 8). Como se repete com frequência na liturgia quaresmal, Deus oferece-nos, a nós pecadores, a possibilidade de sermos perdoados. O facto de partilhar com os pobres o que possuímos, predispõe-nos para recebermos tal dom. Penso, neste momento, em quantos experimentam o peso do mal praticado e, por isso mesmo, se sentem longe de Deus, receosos e quase incapazes de recorrer a Ele. A esmola, aproximando-nos dos outros, aproxima-nos de Deus também e pode tornar-se instrumento de autêntica conversão e reconciliação com Ele e com os irmãos.
5. A esmola educa para a generosidade do amor. São José Bento Cottolengo costumava recomendar: «Nunca conteis as moedas que dais, porque eu sempre digo: se ao dar a esmola a mão esquerda não há de saber o que faz a direita, também a direita não deve saber ela mesma o que faz» (Detti e pensieri, Edilibri, n. 201). A este propósito, é muito significativo o episódio evangélico da viúva que, da sua pobreza, lança no tesouro do templo «tudo o que tinha para viver» (Mc 12, 44). A sua pequena e insignificante moeda tornou-se um símbolo eloquente: esta viúva dá a Deus não o supérfluo, não tanto o que tem como sobretudo aquilo que é; entrega-se totalmente a si mesma.
Este episódio comovedor está inserido na descrição dos dias que precedem imediatamente a paixão e morte de Jesus, o Qual, como observa São Paulo, fez-Se pobre para nos enriquecer pela sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9); entregou-Se totalmente por nós. A Quaresma, nomeadamente através da prática da esmola, impele-nos a seguir o seu exemplo. Na sua escola, podemos aprender a fazer da nossa vida um dom total; imitando-O, conseguimos tornar-nos disponíveis para dar não tanto algo do que possuímos, mas darmo-nos a nós próprios. Não se resume porventura todo o Evangelho no único mandamento da caridade? A prática quaresmal da esmola torna-se, portanto, um meio para aprofundar a nossa vocação cristã. Quando se oferece gratuitamente a si mesmo, o cristão testemunha que não é a riqueza material que dita as leis da existência, mas o amor. Deste modo, o que dá valor à esmola é o amor, que inspira formas diversas de doação, segundo as possibilidades e as condições de cada um.
6. Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma convida-nos a «treinar-nos» espiritualmente, nomeadamente através da prática da esmola, para crescermos na caridade e nos pobres reconhecermos o próprio Cristo. Nos Actos dos Apóstolos, conta-se que o apóstolo Pedro disse ao coxo que pedia esmola à porta do templo: «Não tenho ouro nem prata, mas vou dar-te o que tenho: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda» (Act 3, 6). Com a esmola, oferecemos algo de material, sinal do dom maior que podemos oferecer aos outros com o anúncio e o testemunho de Cristo, em cujo nome temos a vida verdadeira. Que este período se caracterize, portanto, por um esforço pessoal e comunitário de adesão a Cristo para sermos testemunhas do seu amor. Maria, Mãe e Serva fiel do Senhor, ajude os crentes a regerem o «combate espiritual» da Quaresma armados com a oração, o jejum e a prática da esmola, para chegarem às celebrações das Festas Pascais renovados no espírito. Com estes votos, de bom grado concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 30 de Outubro de 2007.
BENEDICTUS PP. XVI